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Heranças de felicidade

Heranças de felicidade

Ignácio deixou sua casa aos 14 anos. Fez malcriação para o pai em uma manhã e saiu batendo a porta, coisa inadmissível naqueles tempos. Voltou a noite e ouviu do pai a seguinte sentença: “filho meu que sai de manhã de casa, não volta à noite. Vá seguir a sua vida”. Seria o radicalismo daqueles tempos, um traço da família, ou a personalidade inflexível de seu pai?

Ignácio foi ser marítimo, viajando pelo mundo. Não estudou muito, talvez tenha concluído o primário. Ao se aposentar, havia conquistado a posição de segundo maquinista, do que muito se orgulhava. Já adulto, recebeu notícias de sua família. Seus irmãos o procuraram para repartir a herança, já que seu pai, um próspero fazendeiro em Sergipe e na Bahia, havia falecido.

Contrariando fortemente sua mulher e seus próprios filhos, que deviam ser em 8 ou 9, agora adultos, foi a vez de Ignácio ser radical, como poucos seriam: “Não aceito nada. Não ajudei a construir a riqueza do meu pai. Não tenho direito a nada”. E assim foi, mesmo diante das súplicas de filhos, noras e genros, todos em situação financeira difícil. Ignácio era o único que tinha uma poupança. Guardava o dinheiro debaixo do colchão e fechava a porta do quarto, cada vez que um dos filhos ou netos ia pedir-lhe dinheiro emprestado. Nesta ocasião, fazia um pequeno discurso sobre a importância da palavra e que a data acertada teria que ser respeitada. Quem falhava em um dia sequer, recebia sermões e perdia o direito de fazer um novo pedido por muito tempo. Toda a família ficaria sabendo do quanto aquela pessoa não merecia confiança. Ao contrário, se o devedor pagasse no dia marcado, podia dar uma volta na cozinha da casa, beber uma água e fazer um pedido de valor maior ainda. Desta vez o discurso destacaria que a pessoa era merecedora de crédito e da importância da palavra. Eu mesmo, como neto, em meu primeiro empreendimento, aos 18 anos, estava sempre precisando de dinheiro emprestado e recorria ao vovô, fazendo uso deste expediente. Se não podia pagar no dia, pegava com outra pessoa um empréstimo por algumas horas. Pagava ao meu avô, depois pedia um valor um pouco maior e pagava a pessoa. Sempre deu certo.

Minha mãe Nedy herdou de seu pai o valor da palavra. Também ela precisou lutar muito. Também era radical no que considerava certo e errado e incutiu nos filhos a forte crença de que o maior patrimônio de qualquer pessoa é a confiança. Que uma pequena mentira ou um descumprimento de algo combinado seria capaz de destruir todo o patrimônio construído em uma vida.

Ela casou-se com Manuel, português que se estabeleceu no Brasil e que até os 45 anos foi empresário relativamente bem-sucedido. De natureza mais flexível e mais tolerante, não percebeu que estava sendo roubado pelo sócio e quebrou, perdendo tudo de uma única vez. Meus pais foram parar com meu irmão mais velho em um quarto de pensão e faltava dinheiro até para o almoço do dia. Manoel chegou a falar duas vezes em suicídio, mas foi confrontado pela força radical da mulher: “se quer se matar, se mata logo, ou não fala mais nisso e vai arranjar trabalho. Vai ser empregado de qualquer coisa”.

Manuel tinha como marca a gentileza e esta qualquer coisa viria dali. Ao ceder o lugar para uma mulher grávida no ônibus, iniciou uma conversa com o marido dela. Recebeu dele uma indicação para propagandista vendedor em uma indústria farmacêutica. Era um trabalho duro nos subúrbios quentes do Rio, carregava peso de manhã à noite e suas mãos desacostumadas com o trabalho pesado, sangravam ao final dia. Manoel trabalhou por mais de 20 anos neste laboratório e passou o bastão para seu filho quando se aposentou. Em início de carreira, recebi de herança o cargo, os clientes e a amizade de centenas de pessoas que conviveram com ele. Manuel deixou ainda o exemplo da resiliência e da generosidade. Teve também a sabedoria e superioridade de sair de cena bem devagar, dando espaço para os filhos seguirem fazendo as suas próprias escolhas.   

Mokiti Okada nos lembra que somos a síntese de centenas ou milhares de antepassados. Recebemos deles heranças importantes. Elas nos ajudam a ser o que somos e podemos transformá-las em heranças de felicidade, honrando cada uma de suas histórias, seus acertos e erros. Neste dia 02 de novembro, que tal lembrarmos que eles não estão mortos, mas vivos em nós?

 

Julio Sampaio (PCC, ICF)

Idealizador do MCI – Mentoring Coaching Institute

Diretor da Resultado Consultoria, Mentoring e Coaching

Autor do Livro: Felicidade, Pessoas e Empresas (Editora Ponto Vital), dentre outros

Texto publicado no Portal Amazôna e no https://mcinstitute.com.br/blog/

 

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