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Missão: soft skills! Como professores podem ajudar seus alunos a desenvolver habilidades comportamentais

por Danilo Pastorelli

Se olharmos para as posições que o Brasil obteve no exame de 2015 do PISA (sigla em inglês para Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), que reúne 70 países em todo o mundo, ficaremos assustados com os resultados: 59ª na competência de leitura, 63ª em Ciências e 66ª em Matemática. Como é sabido, temos um longo e desafiador caminho até conseguirmos elevar, sustentavelmente, o nível de habilidades técnicas (também chamadas de hard skills) e cognitivas dos nossos alunos.

No entanto, há um universo ainda mais instigante a ser desbravado, trazido à discussão massiva quando do lançamento da nova BNCC – Base Nacional Curricular Comum, em 2019: trata-se das soft skills, ou habilidades socioemocionais. Das 10 competências gerais presentes no documento que deverão nortear o trabalho dos professores em sala de aula, ao menos 7 são predominantemente comportamentais, como empatia e cooperação, autoconhecimento e autocuidado, comunicação e criatividade.

Não há dúvidas, é uma mudança radical no paradigma da prática do ensino, considerando que, apesar dos avanços trazidos na literatura e nos parâmetros curriculares desde a década de noventa, nós, professores, ainda priorizamos a prática docente muito fundamentada em conteúdos curriculares, primordialmente conceitos e operações, ou seja, o desenvolvimento das hard skills, medidas não apenas nas avaliações internas (provas, trabalhos e exercícios), como nas externas (PISA, SAEB ou mesmo ENEM).

O aprimoramento das soft skills em nossos alunos pressupõe uma construção bastante elaborada e complexa, pois embora o resultado desse desenvolvimento possa ser nítido no desempenho deles nas mais variadas aplicações, seja na proficiência da resolução de problemas em diversos cenários ou na comunicação eficiente de uma ideia, por exemplo, ainda é incipiente a forma e o processo de avaliação dessas habilidades.

No entanto, há consenso na relevância crescente que essas habilidades comportamentais já têm, e terão ainda mais, se levarmos em consideração que os avanços da tecnologia 4.0 substituirão mais rapidamente os postos de trabalho intensivos em atividades reprogramáveis que poderão ser executadas por máquinas ou softwares. Os avanços da Quarta Revolução Industrial, fenômeno conhecido e identificado desde início dos anos 2010, são impressionantes em todos os aspectos e colocam em xeque o peso das hard skills, isoladamente, na formação das pessoas.

Isso quer dizer que se espera muito mais do aluno que sai da escola nos anos finais da educação básica e depois do ensino superior, que sua formação dê conta de aparelhá-lo não só nos vários níveis cognitivos, dos raciocínios mais simples aos mais complexos, mas também que seja um ser humano social e emocionalmente aprimorado, que saiba conviver com a diversidade e a adversidade, pronto a aprender com fracassos e protagonizar sua história.

Em vista desse movimento, o trabalho dos professores tornou-se mais complexo. Precisaremos dar conta, verdadeiramente, de criar as condições necessárias para que nossos alunos se desenvolvam de maneira holística, incluindo dimensões por vezes ignoradas, principalmente nos anos finais do ensino médio, em que prevaleciam as competências especializadas e compartimentadas por áreas do conhecimento.

Parece óbvio, portanto, que nós precisaremos desenvolver nossas próprias habilidades socioemocionais ao passo que ajudamos nossos alunos fazer o mesmo. Será um processo de construção mútua, muito mais consciente da nossa parte, é verdade, mas que transbordará nas práticas de sala de aula e nas relações intra e interpessoais cultivadas no ambiente escolar e fora dele também.

Pensar nas possibilidades e oportunidades que podem ser criadas a partir dessa perspectiva, testar, errar e aprender novas maneiras de configurar as experiências de aprendizagem holísticas, deverá ser o combustível motivador dos novos professores, aqueles alinhados aos valores humanos do século XXI, tecnicamente preparados e com propósito claro de servir ao desenvolvimento do estudante.

Pensando nisso, alguns pontos de reflexão podem ser sugeridos para aqueles professores que desejam avançar no entendimento do novo paradigma das competências socioemocionais e do seu papel em sala de aula. Sem que isso seja mais um peso a carregar, e são muitos para nós professores, podemos passar a considerar:

  1. construção da identidade como forma de encontrar o propósito de vida: pode parecer repetitivo, mas a trilha do autoconhecimento – que em geral pode durar uma vida toda – é, com absoluta certeza, o elemento central na construção da identidade do ser humano e, por consequência, da realização profissional como parte integrante da realização como indivíduo. Ao perscrutar o conhecimento de si, a busca por entender o seu propósito de vida trará à tona sua motivação e seu sistema de crenças, valores e significados que poderão fazer a diferença na vida dos seus alunos.
  2. encontrar poder na vulnerabilidade: embora sejamos professores, é preciso entender que somos falíveis e que há beleza na vulnerabilidade (não confundir com fraqueza) diante dos alunos, algo caracteristicamente humano; isso nos aproxima e gera empatia imediata. A crença de que precisamos parecer duros demais ou enérgicos demais nos distancia deles e de nós mesmos. Como mostram pesquisas recentes, combater o medo da vergonha e o medo de errar, libera as capacidades criativas e, como consequência, as chances de elaborar aulas mais complexas e atividades mais significativas.
  3. aprimorar os níveis de comunicação: sabemos que há diferentes perfis comportamentais nas salas de aula, de alunos e professores. É possível estabelecer comunicação não violenta com a prática cotidiana, por exemplo, do mindfulness que, além de aumentar o desempenho nas tarefas comuns por conta do aumento na concentração, ajuda a manter uma comunicação empática, centrada e eficiente.  
  4. assumir postura de accountability: ter comprometimento com o ofício do professor, assumir compromissos reais com o próprio aprimoramento pessoal e profissional, assumir as consequências dos seus atos de maneira adulta, ter postura responsável diante dos alunos, ser transparente nas decisões que envolvem os alunos. Essas posições, tomadas de maneira autêntica diante dos estudantes, servem de modelo concreto e são muito mais eficientes que qualquer discurso dito sem eco na vida real.

Mais que uma obrigatoriedade imposta pelo documento oficial BNCC, o desenvolvimento de habilidades socioemocionais precisa ser encarado como oportunidade de crescimento individual e coletivo e não deverá haver lugar mais adequado a isso que as escolas, com suas incongruências, potencialidades e oportunidades infinitas.

 

Danilo S. S. Pastorelli

Cofundador do Invictus (startup de educação), conferencista, trainer e mentor de professores, professor de educação básica e superior desde 2005, formado em Teaching and Learning in Higher Education pela Universidade de Tampere (Finlândia),  analista comportamental, educador sistêmico, Mestre em Economia e Graduado em História.

Educação do Futuro
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