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Francesco Tonucci: Que cada um encontre sua própria "excelência"

Francesco Tonucci: Que cada um encontre sua própria

 

Este pedagogo e autor, valoriza e respeita o artigo 13 da Convenção sobre os Direitos da Criança, que diz:

A criança terá o direito à liberdade de expressão; este direito incluirá a liberdade de buscar, receber e transmitir informações e ideias de todos os tipos, independentemente de fronteiras, de forma oral, escrita ou impressa, por meio das artes ou por qualquer outro meio da escolha da criança.


Francesco Tonucci nasceu em Fano, uma pequena cidade da região de Marche, na Itália, em 1940. Formado em Pedagogia, pela Universidade Católica de Milão, considera-se um "estudioso de crianças", ou como ele próprio se denomina, um “criancista”. Ele diz que as crianças não são recipientes vazios a serem preenchidos com conhecimento. Para Tonucci, as experiências vividas pela criança, na sua vida diária, deveriam ser o material de estudo nas escolas e estas devem prover os instrumentos necessários para que as crianças desenvolvam suas próprias capacidades, suas vocações, seus talentos. Os professores precisam “escutar” o que elas têm a dizer, mais do que ensinar do próprio conhecimento. “O professor não é o saber mas o mediador do saber”, diz Tonucci. As opiniões das crianças, sobre todas as coisas com as quais tem contato, deveriam ser levadas em conta e o conhecimento, dentro das escolas, vir do “encontro” de docentes e discentes.

As crianças aprendem especialmente com o divertimento, com o brincar. Tonucci critica a antecipação da escolaridade obrigatória e a ênfase exagerada nos conteúdos das disciplinas. A criança vai para a escola para aprender autonomia, para investigar sobre as coisas, para descobrir-se a si mesma e ao mundo. Suas pesquisas pedagógicas tem como foco o desenvolvimento amplo da criança, seja nas escolas, nas famílias, como cidadãos, na vida enfim.

A escola, para Tonucci, “...deve ser um lugar belo, onde se possa respirar cultura, que tenha música, arte, seja agradável e cômoda. Deve preocupar-se por oferecer a todo o mundo aquelas bases, aquelas motivações, aqueles modelos culturais imprescindíveis para construir-se em patrimônio de conhecimento, habilidades e competências”. O êxito escolar, com domínio da língua e da matemática – áreas básicas, importantes e fundamentais na escola - não garante o êxito do indivíduo na vida. Eles precisam valorizar a si mesmos e também tornar manifesto esse valor para as demais pessoas, em todos o círculo de convivência. Todos têm um âmbito de excelência em si mesmos. É função dos professores e dos pais ajudar as crianças a descobrirem essa “excelência” e promover as condições para que possam dedicar-se a isso. É diferente da proposta das escolas que, por tanto tempo, visa a padronização do conhecimento a ser ensinado (pré-formatado) e, depois, deixar que as crianças decidam o que lhes faz feliz. Tudo deve caminhar junto, ao mesmo tempo, para formar pessoas realmente felizes. Diz ele que as pessoas felizes enfrentam a vida de uma maneira muito mais positiva e com muito mais possibilidades de ganhos do que aquelas que são frustradas e infelizes. O prazer é o motor mais forte que temos!

Francesco Tonucci, desde pequeno, teve grande atração pelo desenho, mas a escola não valorizou esse talento. Só muito mais tarde dedicou-se a isso. Em 1970, publicou um dos mais famosos livros dedicados às crianças, com o heterônimo de "Frato", falando da escola de forma gráfica e satírica.

Para ele, a  escola continua até hoje praticando os mesmos erros do que as escolas do seu tempo de criança, quando deveriam estar criando pessoas que fossem capazes de respeitar-se, ser individuais, livres, ter as suas próprias opiniões, ser pessoas menos frustradas e mais decididas a formar as suas capacidades. Crianças felizes irão criar uma sociedade melhor que a nossa, em poucos anos. Não se deve orientar as crianças para profissões que estão “na moda” ou que são rentáveis, ou que apresentem uma demanda social evidente, mas sim para o que elas trazem dentro de si verdadeiramente. Elas precisam “ser o que são” para serem felizes. Isso se justifica ainda mais no mundo de hoje, onde as mudanças são muito rápidas e não sabemos o que será importante, socialmente, amanhã.

São afirmações de Francesco Tonucci, sobre as escolas:

  • A experiência das crianças deveria ser o alimento da escola: sua vida, suas surpresas e suas descobertas. Meu professor sempre pedia que esvaziássemos os bolsos na sala de aula, porque estavam cheios de testemunhas do mundo exterior: bichos, cordas, figurinhas, bolinhas… Pois atualmente deveríamos fazer o contrário, pedir as crianças que mostrem o que levam nos bolsos. Desta forma a escola se abriria para a vida, recebendo as crianças com seus conhecimentos e trabalhando ao redor delas.
  • A escola segue sendo para poucos. O primeiro desafio, portanto, ainda é como fazer com que a escola seja para todos – e para cada um.
  • Nestes últimos cinquenta anos que eu venho acompanhando as escolas da Itália, Espanha, Argentina – conheço menos o Brasil – e vejo que os governos foram tentando reformar a escola. Mudaram programas, livros, a arquitetura, mudaram os horários, enfim, mudou tudo. A única que permaneceu igual foi a escola. A escola da minha neta de nove anos é muito parecida à minha escola de setenta anos atrás. E não podemos mais suportar isso, considerando como o mundo mudou. O que aprendemos, então, é que não se muda a escola com leis. As leis e as reformas não são capazes de mudar a realidade. E como faremos então? – Obs.: Francesco Tonucci dedica-se, especialmente, à formação de professores.
  • A escola de hoje que eu conheço está muito mais preocupada com “o que falta” do que com o que existe. Toda avaliação se dedica a buscar o que falta. As lições de casa têm como objetivo final ajudar os alunos a recuperar as lacunas. Pedimos às crianças que dediquem sua atenção ao que não existe, ao que falta, àquilo que eles não gostam. Ao contrário, deveríamos pedir que se dediquem ao seu “brinquedo favorito”.
  • A escola deveria abrir o leque de opções, não se contentar em oferecer pouco, mas sim oferecer muito. O leque de linguagens deve ser grande e na escola deve ser possível trabalhar com as mãos, fazer música, fazer uma horta, investigar, criar poesias, inventar contos, fazer teatro. Oferecendo muitas linguagens, a escola gera possibilidades e cada um encontra o que é seu, cada um pode se dedicar ao seu “brinquedo favorito”.
  • Para todos os estudiosos da infância e do desenvolvimento infantil, a brincadeira é a experiência mais importante na vida de um homem e de uma mulher. Ao longo da vida, todo o cimento sobre o qual se constroem nossa formação e nossa cultura, foi adquirido nos primeiros anos de vida, brincando.

Algumas indicações de Tonucci sobre como a escola deveria ser:

  • Colocar-se a um objetivo fundamental: ser uma escola PARA TODOS
  • Saber a importância de construir as bases culturais para as crianças, porque 80% das famílias não é capaz de oferecer às crianças suas bases culturais. Que a escola seja um lugar especial, capaz de suscitar emoções culturais. Um lugar onde se ouve música, onde se possa ver arte, coisas belas. Ofereça espaços que tenham sentido – não espaços vazios, espaços repetidos. Que o pátio seja um espaço aberto para que se possa ainda pensar de maneira cultural – onde há uma horta, um pequeno lago, onde haja animais, etc. Não é possível que peçam aos alunos que aprendam a ler e escrever decifrando letras; eles precisam ouvir as pessoas lendo, gostar da leitura; que vivam a experiência da escuta até desejar poder seguir sozinhos lendo. As crianças falam, as crianças inventam, e as palavras escritas saem das paredes da aula.
  • A escola deve acolher. Não deve ser uma escola de alunos que escutam um adulto, presumindo-se que os alunos nada saibam. A primeira coisa que a escola precisa fazer é escutar os alunos. Saber que é antigo e ultrapassado pensar que escrever bem é mais importante que dançar. A escola deve permitir a cada aluno escolher sua linguagem, sua forma de manifestação.
  • Os lugares de estudo têm que ser significativos para as crianças e eles devem se mover, conforme mudam as matérias, para espaços distintos (oficinas, laboratórios, etc.) que tem a ver com o que vão estudar. As “classes” são lugares totalmente antinaturais – a criança fica lá, sentada por horas, fazendo toda espécie de atividades.
  • O papel da escola e o papel da educação familiar, escolar e social deveria ser que cada um encontre sua própria “excelência”, possa reconhece-la e desenvolvê-la em seu limite máximo, sem levar em conta o que diz o mercado de trabalho.
  • Os primeiros anos de estudo colocam as bases que um homem e uma mulher vão desenvolver ao longo da vida.
  • A escola deve promover a cooperação entre os alunos e nunca a competição.
  • A escola deve ser democrática e as crianças devem ser ouvidas não só pelos professores, mas por quem as administra também.

Francesco Tonucci escreveu numerosos livros, aproximadamente 60 obras. Poucas foram publicadas no Brasil. Alguns títulos de suas obras são:

  • A criatividade, ideias para um discurso educativo. 
  • A escola como investigação. 
  • Aos três anos investiga-se. 
  • Os materiais. 
  • Por uma escola alternativa. 
  • O primeiro ano da nossa criança. 
  • Viagem ao redor de “Il Mondo”. Um diário da aula de Mário Lodi e seus alunos. 
  • Com olhos de criança. 
  • Criança se nasce. 
  • Como ser criança. 
  • A cidade das crianças. 
  • As Olimpíadas 92, com olhos de criança. 
  • A soidade da criança. (Existe publicação em português: A Solidão da Criança, em ebook).
  • Se não fazeis como eu. 
  • Com olhos de mestre. 
  • Queridos pais. 
  • Ensinar, ou aprender? 
  • Quando as crianças dizem basta!! 
  • A maquinaria escolar. 
  • Com olhos de avó. 

Este vídeo é de uma palestra do Francesco Tonucci falando sobre a escola, as crianças, a vida.

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